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terça-feira, 18 de agosto de 2020

O pastor Alexandre Gonçalves indica cinco livros de teologia cristã para resistir em meio aos antagonismos da política

Nos tempos obscuros em que vivemos, criou-se uma ideia quase que generalizada que cristianismo é intrinsecamente ligado à direita conservadora. Também, em decorrência do total abandono da simplicidade do Evangelho e de seu alcance por meio do estudo da boa teologia, ficou caracterizado que a fé cristã e toda a sua teologia são sinônimos de ganância, busca por prosperidade financeira e estabelecimento de uma hegemonia na Terra, tendo como base o proselitismo agressivo, violentando a fé ou ausência de fé alheia.

Para, portanto, ajudar as pessoas a terem uma ideia mais ampla do que significa a fé cristã de fato e como o Evangelho de Jesus é muito maior que os antagonismos da guerra política e ideológica pura e simples, proponho a leitura de pelo menos cinco livros que vão contribuir para que a teologia cristã não seja reduzida às fracas e ao mesmo tempo muito disseminadas teologias da prosperidade, do domínio e a própria teologia abraçada por vários neocalvinistas influentes nas redes sociais, que defendem que as leis civis do velho testamento sejam utilizadas para o conjunto da sociedade atual.
Discipulado

Dietrich Bonhoeffer (Trad. Murilo Jardelino e Clélia Barqueta, Mundo Cristão, 2016)

Este livro foi escrito em 1937, em uma época bastante conturbada, principalmente para Bonhoeffer, que era alemão, pastor luterano e tinha passado uma temporada nos Estados Unidos em maravilhosa convivência com cristãos de uma igreja majoritariamente negra. Com a ascensão do nazismo, Bonhoeffer sentiu-se impelido a retornar para a Alemanha, pois via que a Igreja Luterana havia se sujeitado ao nazismo ao ponto de as suásticas serem erguidas dentro de templos. É importante saber desse contexto, pois o livro mostra uma visão bastante firme sobre o significado de ser cristão que levou Bonhoeffer ao martírio em 1945, morto por seu envolvimento com um grupo que planejou o assassinato de Hitler.

“Discipulado” é uma resposta prática aos desvios posteriores da teologia da graça de Lutero. Como Lutero apregoou que a salvação era somente pela fé e não por obras, muitos contemporâneos de Bonhoeffer viviam sem se preocupar em levar uma vida de compaixão e amor ao próximo. Esse ensino distorcido de Lutero causou a total capitulação da igreja alemã aos ideais do nazismo, incluindo o ódio aos judeus e a todos os que não fossem da chamada “raça ariana”.

Bonhoeffer mostra que a preciosa Graça de Jesus, tão bem vista e ensinada por Lutero, não pode ser dissociada de uma vida de amor e serviço a Deus e aos homens nesta terra. O ensino de Jesus, por exemplo, de dar a outra face, andar a segunda milha, orar por aqueles que os perseguem, abençoar quem os amaldiçoa deve ser visto como um mandamento que se torna vivo a partir desta preciosa graça dentro daquele que tem fé.

É algo muito forte, pois leva o leitor a um confronto direto a fim de questionar se sua vida é de fato uma vida cristã. Por isso é importante entender o contexto em que foi escrito, pois a decisão radical de Bonhoeffer de romper com o controle do nazismo sobre a igreja foi uma decisão baseada em uma escolha dura: seguir a Cristo, tomando a Sua cruz e participando de Seus sofrimentos (com a morte) ou viver tranquilamente, fingindo ser cristão, quando de fato estava negando o Evangelho, a saber, as palavras e as boas novas de Cristo.
Vozes do cristianismo primitivo

E. Glenn Hinson e Paulo Siepierski (Arte, 2010)

Se você quiser ler um livro que fale da história do cristianismo primitivo sob uma perspectiva dialética, este é uma boa opção. Os autores fazem uma análise crítica da história eclesiástica, rompendo com o modelo de se estudar essa história sob a perspectiva tradicional. Segundo eles, a história que chegou ao nosso conhecimento deve ser questionada, pois foi documentada por meio da ótica dos poderosos.

Assim, os autores se utilizam de todo tipo de registro, incluindo livros denominados apócrifos pela teologia, como o Didaquê. Como parte da ideia de que não se pode confiar plenamente na história contada sob o ponto de vista dos ricos, todos os registros são examinados sob uma visão crítica social, mostrando, por exemplo, a situação de opressão econômica a que os primeiros cristãos eram submetidos, ao ponto de terem de morar em meio às ruínas dos muros de Jerusalém. Sob esta ótica, o sentido de se repartir tudo o que se tinha, conforme o modelo registrado no livro de Atos, era a forma mais primitiva e ao mesmo tempo mais prática e funcional de se minorar as dantescas diferenças sociais e a própria pobreza no seio da igreja, promovendo justiça social.
A vida cristã normal

Watchmann Nee (Tesouro Aberto, 2013)

O autor, líder cristão chinês (1903-1972), foi fundador de um movimento muito grande que se diferenciava das igrejas tradicionais denominacionais, pois sua liturgia e didática tinham traços marcantes da cultura daquele país. Por causa desse movimento e de sua insistência em não submetê-lo ao controle estatal, Nee foi preso durante a Revolução Cultural da China. Morreu na prisão em 1973.

Na verdade, Nee não escreveu esse livro, um clássico da literatura devocional. “A vida cristã normal” é uma compilação de mensagens transmitidas por Nee em 1938 e editadas por seu amigo inglês Angus Kinnear em 1957. O resultado é um um comentário prático da epístola de Paulo aos romanos. Vale a pena a leitura para entender a teologia sob a ótica de um chinês austero e místico.
Cristianismo puro e simples

C. S. Lewis (Trad. Gabriele Greggersen, Thomas Nelson Brasil, 2017)

Uma conversa transcrita, digna dos melhores programas de rádio de antigamente. Ao mesmo tempo, um clássico cristão, sem o proselitismo e o sectarismo de muitos teólogos. Professor, romancista, poeta e crítico literário, C.S. Lewis é lembrado até hoje sobretudo pelas conhecidas “Crônicas de Nárnia”.

Este livro, reunião de uma série de conversas transmitidas pela rádio inglesa BBC durante a Segunda Guerra Mundial, é uma grande contribuição sua como teólogo. O intuito era trazer, em um momento muito difícil para o povo inglês, uma palavra de esperança e ao mesmo tempo de afirmação do que de fato é o cristianismo em sua essência. Lewis faz uma exposição muito didática de seu pensamento, de uma maneira que qualquer pessoa que não tenha formação teológica ou filosófica consegue entender.

Vale destacar as reflexões do autor sobre a teoria da evolução. Lewis não faz defesas infrutíferas do criacionismo, como se os livros que compõem a Bíblia fossem tratados científicos. Essa parte deve causar calafrios nos teólogos e leitores mais fundamentalistas. É também por isso que eu amo esse livro.
A teologia do povo: raízes teológicas do Papa Francisco

Juan Carlos Scannone (Paulinas, 2019)

Tenho muito apreço pela teologia prática de Juan Carlos Scannone. Professor de teologia e filosofia e também padre jesuíta, o autor atua entre os pobres da Argentina e alia a visão acadêmica com a prática humanitária, poimênica e social de um verdadeiro homem religioso. Como amigo e observador da vida de Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, Scannone utiliza essa vivência como ilustração daquilo que ele chama de teologia do povo.

Scannone traz reflexões bem fundamentadas sobre a cultura popular, suas crendices, liturgia e a forma intuitiva e emocional de se relacionar com Deus. O autor propõe que essas são manifestações legítimas da teologia incorporada ao povo, principalmente os mais pobres e com menos acesso à educação.

Uma teologia cristã inculturada do povo argentino e, de maneira, geral nos povos da América Latina. Povos estes, aponta Scannone, vítimas de injustiça estrutural e violência institucionalizada.

Alexandre Gonçalves é pastor há 26 anos, policial rodoviário federal e diretor parlamentar do Sindicato dos Policiais e Servidores da Polícia Rodoviária de Santa Catarina. Formado em direito, letras e teologia com especialização em exegese e implantação de igrejas. Trabalhou como pastor nas comunidades carentes do Rio de Janeiro e em Cuba, formando grupos de convívio e devoção nos lares.

nexojornal

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