O Senado aprovou nesta quarta-feira (24) o projeto do novo marco
regulatório do saneamento básico. A medida estimula a participação da
iniciativa privada no setor.
O projeto de lei recebeu 65 votos favoráveis e 13 contrários.
Depois de um apelo do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP),
os líderes partidários anunciaram a retirada dos destaques, o que
possibilitou que o projeto fosse votado sem que houvesse mudanças. Já
aprovado na Câmara, o projeto seguirá para sanção do presidente Jair Bolsonaro.
A proposta estabelece metas de saneamento a serem cumpridas em até 12 anos. O custo estimado da universalização dos serviços, segundo o relator Tasso Jereissati (PSDB-CE), é de R$ 700 bilhões no período.
O prazo para cumprimento das metas poderá ser acrescido de mais sete
anos. Isso será adotado se a empresa prestadora do serviço comprovar
inviabilidade técnica ou financeira.
O novo marco do saneamento básico tem criado expectativas para a
economia, sobretudo em momento à esperada retomada pós-pandemia do
coronavírus.
O ministro Luiz Ramos (Secretaria de Governo) afirmou nesta quarta
que a nova lei poderá gerar até 1 milhão de empregos em 5 anos.
A nova legislação, em razão das carências do setor, é vista como um ponto de estímulo do crescimento.Os desafios são grandes.
Dados mais recentes do Instituto Trata Brasil estimam que menos 100
milhões de brasileiros não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto.
Isso ajuda na proliferação de doenças, argumento que fortaleceu a
votação do projeto na pandemia.
O contexto do novo coronavírus deu força à proposta entre senadores. O projeto estava parado na Casa desde o fim do ano passado.
Após pedidos da equipe econômica e do ministro Paulo Guedes (Economia), o presidente do Senado delegou Jereissati a missão de construir o relatório.
Jereissati levou menos de uma semana para sacramentar no parecer o
mesmo texto que havia saído da Câmara. Entre os pontos a serem firmados
em contratos está a cobertura de 99% do fornecimento de água potável e
de 90% para coleta e tratamento de esgoto à população.
O projeto prevê que empresas privadas possam prestar o serviço.
Vencedoras de licitação terão de se comprometer com metas para os
próximos dez anos.
Apesar de no Senado haver, desde o início, predisposição para que a
proposta fosse aprovada, Guedes procurou nos últimos dias alguns líderes
para reforçar a necessidade da nova lei.
Guedes conversou com a senadora Simone Tebet (MDB-MS), presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).
Embora queira a retomada das reuniões do colegiado para a votação de
temas considerados polêmicos, Tebet defendeu a celeridade na tramitação
da proposta.Ela argumentou que o novo marco do saneamento é questão de
saúde pública. O projeto do novo marco do saneamento não chegou a passar
pela CCJ.
"Metade do Brasil, 100 milhões, é caminhante a céu aberto em esgoto
não tratado, infectada por seus pés descalços ou por água contaminada.
Dos mil nascidos, 14 não chegam aos 5 anos por falta de saneamento
básico. Números que são vidas perdidas", disse.
Composto por 23 artigos, o projeto do novo marco regulatório do
saneamento deve ser sancionado sem demora pelo presidente, mas alguns
vetos são esperados.
A ideia dos aliados de Bolsonaro é que as medidas possam vigorar já
em 2021 para ajudar na retomada da economia, além de ampliar o acesso a
água e esgoto no país.
Para Paula Rodrigues, coordenadora da Divisão Técnica de Engenharia
Sanitária, Recursos Hídricos e Biotecnologia do Instituto de Engenharia,
o novo marco será um impulso para a atração de novos investimentos ao
país.
"A aprovação do marco regulatório será importante para a
universalização do saneamento, uma vez que vai atrair capital privado
para o setor e gerar competição entre as prestadoras de serviços de água
e esgoto", afirmou.
"Será possível criar regras mais claras, por meio da atuação da ANA [Agência Nacional de Águas]", disse Rodrigues.
Para Christianne Dias, Diretora-presidente da ANA, a segurança
jurídica criada com o novo marco vai beneficiar especialmente a
população que ainda não tem acesso à agua.
“O processo de construção do novo marco do saneamento foi longo, mas
garantiu que todos os atores envolvidos com o setor pudessem dar suas
respectivas parcelas de contribuição. Um dos pilares do marco visa
propiciar maior segurança jurídica e regulatória para atrair
investimentos no país, beneficiando milhões de pessoas que ainda não têm
acesso a água tratada e a coleta de efluentes.”
A entrada de empresas privadas no setor, contudo, foi criticada pelo
líder do Republicanos, Mecias de Jesus (RR). Ele alegou que mudança do
setor vai trazer prejuízos à população, especialmente às do interior.
“Aprovar a privatização seria condenar a população do interior de
Roraima a ficar sem água e sem saneamento, e ainda ver aumentar o valor
da conta de água e da tarifa de esgoto e de saneamento tanto na capital
quanto no interior, como aconteceu com a tarifa de energia”
Pelo texto, também fica determinado que não haverá interrupção dos serviços, mesmo em caso de atrasos dos pagamentos por parte dos usuários.
Na análise do presidente da Aesbe (Associação Brasileira das Empresas
de Saneamento Básico), Marcus Neves, o novo marco é positivo,
especialmente no que diz respeito à regulação dos serviços.
Apesar de considerar que há pontos positivos na proposta, segundo
ele, o momento da pandemia não deveria ser usado para a votação. "Na
nossa análise, faltou debater melhor o avanço entre o público e o
privado. Diante da pandemia, não conseguimos avançar."
Mesmo com a retirada dos destaques, a bancada do PDT, composta por
três parlamentares, anunciou, por meio de seu líder, Weverton Rocha
(MA), voto contrário à proposta.
O líder do MDB, Eduardo Braga (AM) foi um dos que se manifestou
contrário à proposta. Na análise do senador, o projeto não deveria ser
sido analisado sem passar por comissões. Mesmo assim, o MDB defendeu
voto favorável ao projeto.
“Em que pese eu, individualmente, achar que essa matéria deva ser
tratada em sessão presencial, ouvidas as Comissões permanentes do
Senado, por se tratar de uma matéria bastante complexa e que tem como
objetivo atender às necessidades de investimento na área de saneamento, a
maioria da minha bancada quer votar essa matéria no dia de hoje."
A única alteração feita pelo relator foi por meio de uma emenda de
redação, o que não resulta no retorno do projeto para a Câmara. A
sugestão, feito pelo senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), prevê que a
transferência de serviços de um prestador para outro será condicionada,
em qualquer hipótese, à indenização dos investimentos vinculados a bens
reversíveis ainda não amortizados ou depreciados.
O líder do PT, Rogério Carvalho (SE), chegou a pedir a retirada do
projeto de pauta, por, segundo ele, não ter relação direta com a
pandemia. O pedido foi negado pelo presidente da Casa, mas Alcolumbre
resolveu colocar sua decisão em votação no plenário. Com isso, o projeto
foi mantido em votação, por 61 votos contra 12.
Folha